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Você tem se escutado? Quando o medo de errar gera auto cobrança

Jéssica Horácio de Souza – Psicóloga – CRP 12/14394 – Psicoterapeuta Corporal

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“Eu vou agir, mas antes preciso ter certeza que vai dar certo!” – Esta frase é proferida comumente no dia a dia, principalmente diante de escolhas. O ser humano busca a satisfação das suas necessidades bem como o prazer obtido através da satisfação dos seus desejos mais profundos. Por isso a busca por certezas é tão recorrente, todo indivíduo conscientemente busca escolhas que lhe tragam a realização de seus objetivos e diminuam ao máximo possível as possibilidades de frustração.

Contudo, alguns traços de personalidade desenvolvem ao longo de sua vida uma fixação psíquica no medo de sofrer, e este sentimento se ampara sob o seguinte pensamento: “Eu não posso errar!”. Ao estabelecer que não pode errar, o indivíduo determina que está no controle das situações permanentemente, o que contribui para a construção de padrões comportamentais regidos pela autocobrança, rigidez pessoal, ansiedade, comparações, dualidade, impotência e dúvidas constantes.

A dificuldade destes indivíduos se ampara necessariamente na não aceitação das próprias limitações. O medo de sofrer bem como as consequências que este sofimento pode trazer: julgamentos, cobranças, humilhação, perdas…, é tão intenso que o indivíduo por ter medo de atender os seus próprios anseios devido as consequências que isto trará, acaba buscando respostas para as suas dúvidas em fontes externas a si, não percebendo que através disso acaba colocando a sua possibilidade de felicidade em estatísticas, revistas, filósofos, livros de auto ajuda, outras pessoas…

Embora todas as ferramentas informativas sejam uteis ao desempenharem o seu serviço, nenhuma delas consegue se orientar através da subjetividade de cada indivíduo. Neste sentido, embora tais meios forneçam subsídios para propiciar uma escolha assertiva, nenhum deles consegue garantir a efetivação da felicidade de cada indivíduo ao fazer determinada escolha. É por isso que ficamos tão frustrados quando por exemplo seguimos uma receita, fazemos tudo que ela pede, mas no fim não gostamos do sabor do alimento que preparamos: nem todas as receitas conseguem atender todos os paladares, ou seja, não existe uma fórmula única que consiga satisfazer todos os indivíduos, a satisfação é completamente singular.

A busca por certezas surge devido a uma crença pessoal e que pode ter influências familiares – rede sistêmica – de que é necessário ter certezas e garantias para poder agir. Contudo, no comportamento de quem espera ter certezas, estão mascarados os sentimentos de insegurança e fragilidade, acompanhado de uma baixa auto estima, pois o indivíduo denuncia que não confia em si e no que sente, embora seu comportamento comumente se expresse em atitudes de onipotência e autocontrole, os famosos “sabem tudo”.

Somado aos fatores de insegurança e baixa auto estima, existe também uma dificuldade de confiar em si caso aquilo que se quer não aconteça e a frustração acabe surgindo. Ás vezes, a crença sobre o sofrimento decorrente de uma frustração é irreal e quando a situação é percebida como tal, surgem frases como: “Nem doeu tanto assim!”, “Pensei que fosse pior…” São nestas situações adversas, de extrema frustração que surge a possibilidade de se desenvolver a resiliência: que é a capacidade de lidar com as adversidades de uma forma mais branda, conseguir superar obstáculos e se refazer a partir da dor.

Todos nós em algum momento da vida nos sentiremos inseguros, com medo de tomar uma decisão, isso ocorrerá principalmente se nos registros da infância constarem padrões familiares em que existia a impossibilidade de confronto, ou onde as pessoas eram intolerantes com os “erros” e com as “frustrações”, ambientes onde a auto cobrança e a rigidez em ser assertivo eram as regras gerais. Todos os conflitos que não são elaborados permanecem vívidos e orientarão as escolhas no presente e no futuro. Se aprendemos que somente as figuras de autoridade possuem certeza sobre o que é melhor, continuaremos buscando auxílio nestas pessoas. Se aprendemos que somente os autores de livros de auto ajuda sabem o que dará certo, continuaremos confiando a nossa vida em tais roteiros. Se acreditarmos que todas as receitas conseguem satisfazer todos os paladares, permaneceremos executando o que é “correto” ou “adequado” e calaremos os nossos próprios desejos.

Por isso, se você deseja se apropriar de si, se sentir mais seguro e confiante com as próprias escolhas, faça o exercício do autoconhecimento: invista mais tempo e dedicação em se conhecer e saber como você funciona em determinadas situações e como se sente nelas. Este é um método que auxilia na identificação de padrões comportamentais e permite a reestruturação deles. A partir do autoconhecimento é possível analisar qual a origem do medo de errar e como ele tem orientado o próprio comportamento.

Assim, antes de procurar soluções prontas, busque em você mesmo construir as suas próprias soluções, ou aquelas respostas que lhe tragam segurança. E sobretudo, se perceba e se conheça oara que assim você consiga realmente confiar nos próprios sentimentos. Tente a cada dia se arriscar em situações do cotidiano: experimentar uma receita nova, trocar a cor do esmalte, adquirir livro de autor que é desconhecido para você. E caso se frustre, perceba como você lidará com esta frustração e se você pode transformá-la em aprendizado. Desenvolver a capacidade de encontrar alternativas que lhe assegurem no caso de se frustrar com uma escolha é também uma forma de se sentir mais seguro e menos angustiado.

Contudo, o melhor método para encontrar as respostas é se escutar e atender os próprios anseios, e a partir disso assumir as consequências diante das próprias escolhas.


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