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Sensação de abandono e medo da rejeição: como mudar a minha história?

CRP 12/14394 – Psicoterapeuta Corporal

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Quando sentida pela primeira vez a dor do abandono deve ter sido muito dolorosa, provavelmente inaugurou também com ela a dor da rejeição. A gente nem lembra daquela experiência inaugural, mais primitiva, mas nosso corpo tratou de armazenar a sensação que ela trouxe: uma dor dilacerante, quase insuportável, de alguém que precisa ser visto e reconhecido enquanto um ser de e para o amor.

Todos nós a sentimos em algum momento da vida, infelizmente alguns através da negligência familiar, outros, pelas circunstâncias naturais da vida, afinal, pai e mãe também tem o direito de atender as outras áreas da vida que tem, definitivamente eles tem o direito de se atenderem, e por vezes não há maldade alguma quando negam a atenção que o filho ou a filha pedem. Mas, qual é a criança que tem consciência para compreender este fato? Pois é. É por isso que a dor é tão forte, porque não a compreendemos, apenas a sentimos.

Então crescemos evitando sentir novamente este monstro do abandono, trancamos ele na nossa psiquê: alguns evitam se relacionar para que o monstro não saia do porão, outros buscam fazer “tudo certinho” para que o outro não tenha motivos para abandoná-lo, há quem peça atenção constantemente através de inúmeras estratégias (doenças, vestimentas, cargos profissionais, desempenho acadêmico, condição financeira…) para que seja mínima a chance de não ser visto.

Cada vez que experienciamos a dor do abandono e da rejeição através dos nossos relacionamentos interpessoais, sejam eles profissionais, acadêmicos, familiares, conjugais, por exemplo, aumentamos o potencial daquela dor lá da infância e registramos outros novos significados negativos em cima dela. E é exatamente aí que cometemos um grande erro. É por nos vermos ainda como crianças que sofremos quando alguém vai embora, quando somos demitidos, quando não somos aprovados em algum teste. A dor destes acontecimentos ao invés de ser real, passa a ser sofrida por conta do passado, é como se não chorássemos a frustração do hoje, mas sim o abandono e a rejeição do passado somados às crenças negativas vinculadas a cada “não” recebido no presente. Ou seja, potencializamos inconscientemente uma dor.

Na infância se justificava o abandono porque éramos incapazes de sobreviver sem o amor do pai e da mãe e ou de quem representou estes papéis. Contudo, quando crescemos já não faz sentido nos sentirmos abandonados, sabe por quê? Porque o abandono diz respeito a negligência de atenção àquele que não possui condições físicas e emocionais para sobreviver sozinho, então, uma vez adultos saudáveis conseguimos nos estruturar para além daquele relacionamento, trabalho, faculdade, por mais difícil que seja lidar com a frustração de não termos sido aprovados ou, queridos.

Isto não exclui a dor da frustração de um plano que fora desfeito e de um sentimento não correspondido, contudo, vivenciar cada dor na sua realidade permite que sofremos apenas por aquilo que é real e impede que fantasias originárias de crenças negativas se instalem e sejam vividas como reais.

Portanto, tratar a dor do abandono mais primitiva e lidar com a realidade constituem escolhas fundamentais para se investir de forma saudável em todas as esferas da vida: relacionamentos interpessoais, trabalho, estudos… É que quando adultos não compete a ninguém nos abandonar ou não, na realidade somos nós que precisamos definitivamente exercer este papel para conosco, ou seja, abandonar o papel de vítimas do mundo, deixarmos de nos ver como crianças indefesas para então nos vermos como adultos capazes.

Assim, passaremos a ter respeito pelas nossas dores do passado e pela história de vida que criamos, afinal, apesar do sentimento de abandono foi possível sobreviver e construir outras experiências. O amor próprio então brotará a partir daí, e a responsabilidade pela própria vida e por aquilo que acontece à ela também.


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